quarta-feira, 24 de outubro de 2007

 

Jornalistas literários

Novos autores descrevem vida cotidiana e transmitem impressões e informações em nova visão jornalística sobre a riqueza cultural do país

Por Rodrigo Alves

Está chegando às livrarias, físicas e virtuais, de todo o país o livro Jornalistas literários - Narrativas da vida real por novos autores brasileiros (foto, 320 páginas, R$ 53,90), publicação da Summus Editorial. A obra, organizada pelo professor, jornalista e escritor Sergio Vilas Boas, é resultado de uma iniciativa pioneira no Brasil: apresentar a produção de jornalismo literário de autores brasileiros contemporâneos.

O livro é composto por dezesseis narrativas sobre pessoas reais e suas experiências. Com base em temas ou perfis biográficos, os artigos foram produzidos com a filosofia, a metodologia e as técnicas do jornalismo literário: criatividade, muito trabalho de campo, pesquisa intensa, detalhamento, expressão apurada e preocupação com o refinamento do texto.

O lançamento oficial do livro será realizado no dia 28 de novembro, às 19 horas, na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, nº 509, São Paulo (SP). As novas revelações são jovens alunos das turmas de pós-graduação lato sensu da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) – assim como fui – que empregam em suas narrativas o refinamento da literatura.

Para quem não sabe, o jornalismo literário é uma modalidade do jornalismo que ganhou força na imprensa estrangeira, especialmente a dos Estados Unidos, entre os anos 1940 e 1970. Quem já não ouviu falar do Novo Jornalismo? Pois é, foi um dos movimentos que deram origem à retomada da reportagem com técnicas literárias que aos poucos vem ganhando corpo no Brasil. A vivência de pessoas comuns, seus dramas e dilemas são retratados com a elegância do texto elaborado sob o aprofundamento da reportagem jornalística.

Com a palavra o organizador: "A obra fala de temas sociais brasileiros relevantes. É material para ser lido como literatura, mais do que como jornalismo.” A obra demonstra que jornalistas, ou mesmo outros profissionais talentosos na atividade de narrar, podem desenvolver a tarefa de dizer por escrito. "Tradição e autenticidade. Razão e intuição. Lógica e emoção. Os ingredientes necessários à prática do jornalismo literário formam uma constelação criativa complexa", explica Edvaldo Pereira Lima, professor da ABJL.

Entre as narrativas temáticas apresentadas no livro, há histórias sobre um pastifício de Porto Alegre (Pasta e Passione); Paranapiacaba (SP) e suas memórias ferroviárias (Nos Trilhos do Passado); a comunidade armênia paulistana (Velha Nova Armênia); um sítio para crianças portadoras do HIV (As Artérias do Agar); casais sem-teto (Teatro das Esperanças); jogadores de um time diferente (Futebol Que se Joga na Rua); a influência cultural das árvores (De Árvores e Pulmões); uma homenagem ao rock genuíno (Dinossauros Imortais); o edifício Copan (Vidas em Concreto); e a superação do medo de dirigir automóveis (O Medo em Marcha à Ré).

Nos textos biográficos, as pessoas em foco são: um jornalista literário insubordinado e controverso (Marcos Faerman, um Humanista Radical); um senhor do mar catarinense (O Pescador Marino Streck); uma paciente às vésperas de uma neurocirurgia (O Outono de Fernanda); uma senhora extraordinariamente espiritualizada (A Clarividente Neiva); um certo Sr. Domingos, apaixonado para todo o sempre por sua Sra. Mulata (Simplesmente Mulata).

Serviço
Livro: Jornalistas Literários - Narrativas da vida real por novos autores brasileiros
Lançamento oficial: 28 de novembro, 19 horas. Na Livraria Martins Fonte, Av. Paulista, nº509, São Paulo (SP)
Organizador: Sergio Vilas Boas
Editora: Summus Editorial
Preço: R$ 53,90
Páginas: 320
Rodrigo Alves é jornalista e especialista em Jornalismo Literário

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

 

Coisas de casal

Adriana Esteves e Marcos Palmeira estrelam peça no Rio de Janeiro sobre o casal de cangaceiros Lampião e Maria Bonita

Por Carlos Eduardo Melo

Estreou quinta-feira, dia 18, no teatro de arena do Sesc Copacabana, a peça Virgolino Ferreira e Maria de Déa – Auto de Angicos, texto de Marcos Barbosa, direção de Amir Haddad, com Adriana Esteves e Marcos Palmeira (foto).

A premissa, convenhamos, não é das mais originais. Os personagens focalizados, também não. O mais interessante, pretensamente pelo menos, talvez seja a reunião desses dois temas fáceis, com o objetivo de criar uma visão algo diferente de uma história já bastante conhecida.

Casal de cangaceiros discute relação num acampamento no meio do sertão. Que tal? Eles são Virgolino Ferreira, o Lampião, e sua mulher, a Maria Bonita. Os dois, acometidos por uma compreensiva insônia, considerando a rotina exasperante que vivem, perseguidos pelos “macacos” da polícia, tiram a última hora de suas vidas para uma discussão das mais monótonas.

Poderia ser um “já falei mil vezes para não apertar o tubo da pasta de dente pelo meio...” ou “não dava para pendurar a toalha molhada, em vez de deixá-la enrolada em cima da cama?”, ou ainda “por que você sempre deixa suas calcinhas no box?” tivessem, lógico, Lampião e sua senhora o saudável hábito de escovar os dentes e tomar banho.

Mas não, o assunto dos dois, que preenche quase noventa minutos de espetáculo, ora evoca o passado (por que você fez aquilo?), ora vislumbra o futuro (a gente vai embora pra bem longe...), ora mostra a conhecida vaidade do líder dos cangaceiros, ora acentua a determinação da primeira-dama do cangaço. Nada muito original.

Imaginar os astros Marcos Palmeira e Adriana Esteves, bons atores indiscutivelmente, nas pessoas do casal de cangaceiros não é o mais difícil, embora a platéia (povoada de famosos, na estréia) tenha encontrado momentos para rir quando a discussão deveria ser séria – isso muito pelo modo um tanto histérico de algumas falas de Adriana, que lembram alguns personagens que interpretou ou interpreta na TV.

O pior mesmo é encarar um recorrente problema que se repete com lamentável freqüência em tantas produções, seja no cinema ou no teatro, e não só no Brasil. Trata-se do terrível fantasma dos quinze minutos a mais. Quer dizer, tivesse no mínimo quinze minutos a menos (a peça, não a vida do casal, por favor), não se perceberia com tanta nitidez a sensação de tempo desperdiçado, apesar do carisma dos atores.

Serviço
Peça: Virgolino Ferreira e Maria de Déa – Auto de Angicos
Data: De quinta a sábado, às 21 horas, e domingo, às 19h30
Local: Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, nº 160, Copabacana
Ingresso: R$ 3 (comerciários) e R$ 12 (comunidade geral)
Informações no Rio de Janeiro: (21) 2548-1088

Carlos Eduardo Melo é jornalista e especialista em Jornalismo Cultural

Foto: Divulgação

domingo, 21 de outubro de 2007

 

Frasco de Floral

Nesta semana será comemorada a 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia. A seguir conheça a história do corajoso Marcelo

Por Rodrigo Alves

Marcelo seria personagem de uma matéria minha, indicado por um amigo em comum. A pauta: jovens que só pensavam em beijar. Acabei desistindo dele. Era muito velho para o perfil que procurava – tinha 29 anos e a matéria era sobre adolescentes. A perda foi significativa, pois seria o único personagem homossexual da reportagem.

Sua orientação sexual foi levada em conta porque eu gostaria de contar a história de alguém que raramente aparece neste tipo de matéria: um homossexual. Queria mostrar que não há diferença nenhuma de comportamento com os heteros, mesmo quando se trata da mania de beijar.

Frustrado com a impossibilidade, propus a ele ser personagem de uma matéria, em jornalismo literário, que teria de escrever para a especialização. Ele topou. Topou inclusive que eu publicasse nome e sobrenome já que desta vez a matéria não sairia no jornal.

Cheguei à casa dele em um domingo chuvoso. Estávamos sozinhos, porque ele pediu para que o tio e o primo, com os quais dividia o apartamento, não ficassem em casa. Confesso que fiquei nervoso. Talvez pelo preconceito bobo que infelizmente carregamos arraigado dentro de nós. Por mais que tentemos escondê-lo, reprimi-lo, ele, às vezes, insiste em aflorar.

Notei que Marcelo tinha acabado de tomar banho e estava perfumado. Em nenhum momento se insinuou a mim, algo que imaginava poder acontecer a qualquer momento. Cheguei a criar a cena na minha cabeça de como seria embaraçoso ter de explicar a ele que não estava ali para aquilo e que tinha namorada.

Obviamente nada aconteceu. Burro preconceito. Cabeça fraca. Como é que eu pude imaginar aquilo? Senti-me por muito tempo um monstro. Mas, depois entendi que aquela vivência me ajudou a ter uma visão um pouco mais plural e fez parte de um processo de amadurecimento.

A conversa foi muito agradável. Ela se repetiria ainda mais duas vezes, na intenção de mergulhar mais profundamente na vida do meu personagem. Naquele início de noite, Marcelo me mostrou o vidro do floral (um remédio homeopático) que usava.

Estava sobre a mesa do computador, enquanto ele procurava por um site na Internet que explicava para que serve cada componente da fórmula. Ainda restava um pouco do conteúdo no frasco e o rapaz lembrava-se que era hora de pedir nova receita para a psicóloga.

A fórmula ajuda a superar compulsões, indecisão, depressão, preguiça, timidez, fumo e a aumentar a autoconfiança. Houve um momento em que uma compulsão por sexo havia surgido e o remédio o ajudou a contornar o problema. Sorriso nervoso, pele morena, cabelos negros curtos, quase sempre escondidos por um boné, ele me contou alguns episódios marcantes de sua trajetória.

Um deles foi o que viveu certa vez, com o segundo companheiro com manteve um relacionamento mais longo. Moraram juntos por muito tempo. Havia acabado de chegar no barracão que dividiam. Depois de quase dois anos de namoro, o relacionamento entre os dois rapazes estava desgastado.

– Eu sei que você não me ama mais – reclamou Marcelo.
– Você quer terminar?
– Não é isso. Acho que não precisa tanto.

Era a oportunidade que o companheiro esperava há muito tempo. Sem dizer o que já era latente, simplesmente anunciou a decisão.

– Em três dias, no máximo, volto para buscar o resto das minhas coisas.
– Tá certo disso? Se sair é definitivo... Não precisa nem pedir para voltar depois.

Marcelo chorou. O companheiro depois quis voltar, mas como ele prometeu, não houve volta. Pela primeira vez conseguia se livrar de um situação que o incomodava há muito. O rapaz, que Marcelo conheceu quinze dias depois de terminar seu primeiro namoro, era gay e não se aceitava. “Gay não é uma coisa certa”, dizia sempre.

Visivelmente perturbado, o rapaz se auto anunciava um protegido de Deus e só por isso podia continuar tendo relações homossexuais. Obrigava Marcelo a se confessar ao padre toda semana para poderem comungar nas missas dos domingos.

Naquele domingo em que eu o encontrei, ele não foi à missa. Já não ia há anos. A chuva lá fora havia parado e tive de ir embora. Marcelo tinha outro compromisso. Iria se encontrar com o atual namorado. Estava meio ressabiado com o namoro. Com sete meses de relacionamento, o novo companheiro estava um pouco indiferente. Marcelo parecia prever que, daí a menos de um mês, outro relacionamento terminaria, mas desta vez de uma forma saudável.

*Marcelo é nome fictício que resolvi usar para preservar sua identidade

Semana GLBT
Esta semana é dedicada ao orgulho gay em Goiânia. O ápice da semana será no domingo, com a 6ª edição da Parada Gay da cidade, oficialmente chamada de Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transsexuais e Travestis). O evento inicia-se ao meio-dia, no Parque Botafogo (próximo ao Parque Mutirama). Durante a semana será realizada no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, a 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia, entre os dias 22 e 27. O ingresso custa R$ 1 por dia. Confira a programação:

Segunda
19h - Abertura - Tema: Cidadania e Direitos Civis: conquistas e ausências para a
população GLBT
20h - Vernissage – Homo queer remixed. Com curadoria de Hugo Siqueira (DF) e trabalhos de Alex Cerveny (SP), Astrounata Mecanico (SP), Clovie Masson (GO), Fernando Cardoso (MG), Fernando Carpaneda (DF), Florian Raiss (SP), Leo Brizola (DF), Lwolf (DF), Lincoln (DF), Marcelo Henrique (GO), Marcelo Salum (SP), Marcelo Solá (Go), Max Miranda (GO), Ronan Gonçalves (GO), Nazareno (GO), Zello Visconti (DF), Chikim Lopes (GO), Glenda Torres(DF/SP), Vinícius Moreira (GO)
21h - Filme: Stonewall (EUA, 99min, 1995)

Terça
12h30 – Filme: Hedwig – Rock, Amor e Traição (2000, 95min)
18h30 – Sessão curtas: Desejo proibido (2000, 30min), Mergulho noturno (2005, 19min), Laura, uma Diva do Babaduu! (2007, 22min)
20h30 – Filme: Short Bus (2006, 102min)
22h – Debate: Violência e Discriminação da População GLBT

Quarta
12h30 – Filme: Minha mãe gosta de mulher (96 min)
18h30 – Filme: Beautiful Boxer (2003, 116min)
20h30 – Filme: Café da Manhã em Plutão (2005, 135min)
22h – Debate: Mídia e representação: papéis e performances GLBT

Quinta
12h – Filme: Tempestade de Verão (2004, 98min)
18h30 – Filme: As filhas de Chiquita (2006, 52min)
22h – Debate: Qual o lugar da L no movimento pela diversidade em Goiás?

Sexta
12h30 – Filme: C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor (2005, 127min)
18h30 – Filme: Lado Selvagem (2004, 93min)
20h30 – Filme: Madame Satã (2005, 105min)
22h – Debate: Negritude e Homossexualidade

Serviço
Evento: 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia
Data: 22 a 27 de outubro
Local: Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, Rua 3 esq. c/ a Rua 9 – Centro
Ingresso: R$ 1
Informações: 3524-2541 (Goiânia Ouro)


Rodrigo Alves é jornalista e especialista em Jornalismo Literário

Foto: Murilo Ribas - www.flickr.com/photos/muriloribas

sábado, 20 de outubro de 2007

 

Tá gostoso... mas faltou pimenta

Apesar de deslizes, peça de Pedro Vasconcelos é fiel ao texto de Jorge Amado, como prometeu, e faz jus à obra do escritor baiano

Por Erika Lettry

Confesso: foi com certa desconfiança que fui ao Teatro Goiânia nesta sexta-feira assistir à peça Dona Flor e Seus Dois Maridos. Primeiro porque sou apaixonada pelos livros de Jorge Amado desde que li Capitães da Areia na adolescência. Afinal de contas, como transportar para o teatro toda carga de sensualidade, misticismo e humor das personagens do escritor baiano?

A segunda desconfiança foi em relação ao elenco. Atores com pouca experiência no teatro e que sempre apresentaram peças convencionais demais, globais demais, comerciais demais (com as poucas opções de teatro na cidade, é comum aparecer caça-níqueis por aqui...), é de deixar qualquer um com a pulga atrás da orelha...

Mas a versão para o teatro de Dona Flor e seus Dois Maridos, que teve ontem sua estréia nacional, me surpreendeu de forma positiva. Estava tudo lá, do jeitinho que Jorge Amado gostaria de ver: diálogos maliciosos, sensualidade, bom humor, crítica à hipocrisia e aos recalques e defesa da liberdade sexual feminina. Tudo isso permeado com aquele sotaque mole e gostoso dos baianos, que o diretor Pedro Vasconcelos fez questão de reforçar.

E já antes do elenco entrar em cena, o público foi sendo transportado para este universo do escritor. Aliás, quer combinação mais acertada do que o texto de Amado com a música de Dorival Caymmi? E, para completar, um cenário que lembra as ruas do Pelourinho de Salvador? Se a idéia era fazer o público entrar no clima da peça, conseguiram.

A peça cumpre a promessa feita pelos atores e direção de ser fiel ao livro e começa com a morte de Vadinho em pleno Carnaval. Da platéia surgem os atores em clima de festa, cantando, dançando e tocando tambores. Até que Vadinho, interpretado por Marcelo Faria, cai morto no chão. A cena é cortada para, em seguida, mostrar o enterro do marido de Dona Flor.

De um lado estão os amigos, relembrando as pilhérias do falecido. Do outro lado as mulheres, comentando o quanto Dona Flor sofreu com a infidelidade e os vícios do marido. Em flashback, é mostrada a história do casal, como se conheceram e se casaram, e como a personagem sofreu nas mãos do marido irresponsável.

Depois de relembrar a vida do casal, a cena volta com Dona Flor sendo consumida pelo desejo, o que a incentiva a encontrar um marido. A personagem acaba se casando com o farmacêutico Teodoro, o oposto de Vadinho. É quando ela percebe que, apesar de estar com um bom marido, não consegue viver com a rotina no sexo e chama pelo falecido. Passa então a viver em contradição, até notar que precisa dos dois maridos para ser feliz. Um lhe dá estabilidade, enquanto o outro reaviva seu desejo.

Com uma narrativa cativante – o que, sendo fiel ao texto de Jorge Amado, nem deve ser tão difícil –, a única frustração da peça fica por conta da atuação de Carol Castro no papel principal. Visivelmente nervosa no início da apresentação – afinal, é a primeira vez que protagoniza uma peça de teatro –, a atriz foi recuperando o fôlego no decorrer da encenação. Mas não conseguiu disfarçar a má composição da personagem.

Nem de longe a atriz conseguiu alcançar a força e o carisma que as personagens de Jorge Amado encarnam na literatura brasileira. Basta lembrar que no cinema Sônia Braga foi inesquecível no papel de Dona Flor. Exemplos para inspirá-la em uma boa atuação em personagens do autor nunca faltaram: Patrícia França, no papel de Tereza Batista, Betty Faria como Tieta ou mesmo Giulia Gam com Dona Flor. Mas a moça disse que preferiu não assistir nada antes da peça...

Já no teatro, quem rouba a cena é Marcelo Faria que, no papel do cafajeste Vadinho, conquistou a platéia. Ele mostrou jogo de cintura na rápida cena em que aparece em nu frontal. “Só peço uma coisa: por favor, não coloquem minha bunda na internet”, brincou durante os agradecimentos ao final. Isso sem falar nos atores coadjuvantes – como a mãe e a amiga de Dona Flor. Protagonista de obra do Jorge Amado sem sal? Hum... Por causa de Carol Castro, a impressão que se tem é de que esqueceram de colocar pimenta no acarajé.

P.S. – Apesar da “falha”, recomendo a peça aos espectadores que poderão ver a peça na turnê nacional.


Sessão Extra
Além das próximas sessões previstas em Goiânia, uma para daqui a pouquinho, às 21 horas, e outra amanhã, domingo, às 20 horas, o sucesso de vendas adicionou sessão dominical extra às 18 horas. Veja o serviço no post Muito Bem Acompanhada, abaixo.


Perólas de Vadinho na peça, do repertório de Jorge Amado

“– Que mal há nisso, meu bem? Que é que tem? Deixa minha mão ficar aí, não estou te tirando pedaço, nem te alisando, o que é que tem?”

“Tu está tão bonita, tu nem sabe... Tu parece uma cebola, carnuda e sumarenta, boa de morder...”

“Não posso impedir, mas, apertando um pouco cabe nós três...”

“Deus é Gordo”

Erika Lettry é jornalista e especialista em Jornalismo Cultural

Foto: Divulgação/Guilherme Maia

 

Relações Possíveis

As Leis de Família, novo filme do argentino Daniel Burman, mostra buscas ontológicas às reais possibilidades da vida entre pai e filho

Por Fellipe Fernandes

O que você sente quando sai da rotina? Qual o tamanho que esse sentimento toma ao passar dos anos? Qual a intensidade que a si invoca à medida que se envelhece? De que maneira se deve lidar com tais emoções: com o coração incendiado pela juventude ou com a cabeça apaziguada pela idade? Perguntas assim são tão antigas quanto a discussão ontológica do “quem sou eu?”, “de onde eu vim?” e “para onde eu vou?”, mas que no filme As Leis de Família (foto), do diretor argentino Daniel Burman, que estreou nacionalmente em agosto e ontem em Goiânia, ganham, muito além da razão necessária a sua discussão, o tratamento onírico essencial proporcionado pelo melodrama.

Isto porque nós, os humanos, somos seres em suspenso. Quanto mais ilusões buscamos na realidade, mais realista se torna o nosso ilusionismo, principalmente se o método se aplicar ao discurso diário a que chamamos brevemente de rotina. No filme de Burman, por exemplo, esse preceito é ainda mais lícito quanto transportado para uma narrativa fílmica amarrada por frustrações e desconforto diante da vida que se vive e, ainda pior, diante daquela que se gostaria de ter e não nos permitimos por diversas razões.

Ariel Perelman é o personagem central desse incômodo que, no viés do cinema argentino, é algo tão agradável quanto não deveria ser, mas tão encantador que nos dá a impressão de que não poderia ser mesmo de outro jeito. No filme, Ariel é advogado, filho do também advogado Bernardo Perelman, a quem não chama de pai. Ao contrário do que toda crônica pai-e-filho tende a propor, na história de Burman não há a admiração ao heroísmo do progenitor, mas sim o contrário: cada vez mais, cumprindo a rotina a que chama de vida, Ariel teme se transformar na figura do pai a quem não deseja ser, mas que indiscutivelmente já é semelhante.

A ilusão que, dessa forma, se supunha realidade passa, com a chegada do filho de Ariel, a se converter numa realidade paradoxalmente ilusória. Ele mesmo não é capaz de interagir normalmente com o filho, sob o pretexto de que “somos muito estranhos quando saímos do contexto”. De fato, solucionar todas as barreiras colocadas entre pai e filho - de forma inconsciente pelo primeiro e securitária pelo segundo – seria a redenção de Ariel, como estamos acostumados a ver diariamente nas novelas que seguimos. Mas é aqui que o cinema argentino se diferencia de outros tipos de trabalhos audiovisuais: na trama fluida de Burman, Ariel vai se transformar, mas não se redime.

Mensagem consistente – Contar mais sobre as tramas entre pai e filho de As Leis de Família seria um despropósito para com o filme e, especialmente, para com aqueles que queiram vê-lo. No entanto, é preciso que se diga: muito da relação estética estabelecida entre espectador e a obra de Burman decorre mais das leituras de mundo de quem o assiste do que do próprio filme em si. Porque é recorrente na filmografia do diretor – que fez o belo e também paternalmente conflituoso O Abraço Partido – não ir além daquilo que é essencial, deixando nas entrelinhas o lugar especial para quem tenta aventurar-se emocionalmente a desvendá-lo.

A acuidade visual dos planos, o minucioso trabalho de uma câmera parada que passa a se movimentar, a se arriscar mais durante a narrativa (uma trajetória semelhante à percorrida por Ariel) são pontos a serem observados e relevados nas análises a serem empreendidas em As Leis de Família. O garotinho Eloy Burman (cria do próprio diretor), que interpreta no filme o filho de Ariel, é também uma atração a parte, tão carente de pai como Ariel é do seu.

No entanto, mais do que simplesmente rir ou chorar, As Leis de Família torna-se diante de suas positividades muito mais questionador do que parece ser à primeira vista. Àqueles que irão vê-lo, ainda que vivam numa realidade ilusória (ou também no contrário), muito mais importante do que descobrir do lado de dentro da tela de cinema as respostas daquelas perguntas com as quais se iniciou este texto é transportá-las para o mundo de cá da telona, onde a vida é possível, muito mais do que a simples objetividade de algumas palavras.

Isto porque o filme é vivo e ávido de sua existência, ainda que rotineira para Ariel. Não será de assustar se houver reconhecimento ou processos catárticos por parte dos espectadores durante o desenrolar da trama. Normalmente, se rimos ou choramos, sabemos conscientemente de cada uma das razões que nos levaram às gargalhadas ou às lágrimas. Com isso, seja lá a emoção que desencadear, tem se o recado final do filme: famílias são praticamente sempre as mesmas; só mudam o endereço.

Dessa forma, a pergunta que resta é: como você lida com a sua?

Serviço
Filme: As Leis de Família (Derecho de Família) - Argentina/Itália/Espanha, 2006. 102 min. Drama. 12 anos.
Direção: Daniel Burman

Elenco: Daniel Hendler, Arturo Goetz, Julieta Díaz, Eloy Burman
Cinemas em Goiânia: Shopping Bougainville, Rua 9, Setor Marista - Lumière Bougainville 3 - 15h10, 17h10, 19h10 e 21h10 (programação até quinta, dia 25)


Fellipe Fernandes é jornalista e especialista em Cinema

Foto: Divulgação