domingo, 21 de outubro de 2007

 

Frasco de Floral

Nesta semana será comemorada a 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia. A seguir conheça a história do corajoso Marcelo

Por Rodrigo Alves

Marcelo seria personagem de uma matéria minha, indicado por um amigo em comum. A pauta: jovens que só pensavam em beijar. Acabei desistindo dele. Era muito velho para o perfil que procurava – tinha 29 anos e a matéria era sobre adolescentes. A perda foi significativa, pois seria o único personagem homossexual da reportagem.

Sua orientação sexual foi levada em conta porque eu gostaria de contar a história de alguém que raramente aparece neste tipo de matéria: um homossexual. Queria mostrar que não há diferença nenhuma de comportamento com os heteros, mesmo quando se trata da mania de beijar.

Frustrado com a impossibilidade, propus a ele ser personagem de uma matéria, em jornalismo literário, que teria de escrever para a especialização. Ele topou. Topou inclusive que eu publicasse nome e sobrenome já que desta vez a matéria não sairia no jornal.

Cheguei à casa dele em um domingo chuvoso. Estávamos sozinhos, porque ele pediu para que o tio e o primo, com os quais dividia o apartamento, não ficassem em casa. Confesso que fiquei nervoso. Talvez pelo preconceito bobo que infelizmente carregamos arraigado dentro de nós. Por mais que tentemos escondê-lo, reprimi-lo, ele, às vezes, insiste em aflorar.

Notei que Marcelo tinha acabado de tomar banho e estava perfumado. Em nenhum momento se insinuou a mim, algo que imaginava poder acontecer a qualquer momento. Cheguei a criar a cena na minha cabeça de como seria embaraçoso ter de explicar a ele que não estava ali para aquilo e que tinha namorada.

Obviamente nada aconteceu. Burro preconceito. Cabeça fraca. Como é que eu pude imaginar aquilo? Senti-me por muito tempo um monstro. Mas, depois entendi que aquela vivência me ajudou a ter uma visão um pouco mais plural e fez parte de um processo de amadurecimento.

A conversa foi muito agradável. Ela se repetiria ainda mais duas vezes, na intenção de mergulhar mais profundamente na vida do meu personagem. Naquele início de noite, Marcelo me mostrou o vidro do floral (um remédio homeopático) que usava.

Estava sobre a mesa do computador, enquanto ele procurava por um site na Internet que explicava para que serve cada componente da fórmula. Ainda restava um pouco do conteúdo no frasco e o rapaz lembrava-se que era hora de pedir nova receita para a psicóloga.

A fórmula ajuda a superar compulsões, indecisão, depressão, preguiça, timidez, fumo e a aumentar a autoconfiança. Houve um momento em que uma compulsão por sexo havia surgido e o remédio o ajudou a contornar o problema. Sorriso nervoso, pele morena, cabelos negros curtos, quase sempre escondidos por um boné, ele me contou alguns episódios marcantes de sua trajetória.

Um deles foi o que viveu certa vez, com o segundo companheiro com manteve um relacionamento mais longo. Moraram juntos por muito tempo. Havia acabado de chegar no barracão que dividiam. Depois de quase dois anos de namoro, o relacionamento entre os dois rapazes estava desgastado.

– Eu sei que você não me ama mais – reclamou Marcelo.
– Você quer terminar?
– Não é isso. Acho que não precisa tanto.

Era a oportunidade que o companheiro esperava há muito tempo. Sem dizer o que já era latente, simplesmente anunciou a decisão.

– Em três dias, no máximo, volto para buscar o resto das minhas coisas.
– Tá certo disso? Se sair é definitivo... Não precisa nem pedir para voltar depois.

Marcelo chorou. O companheiro depois quis voltar, mas como ele prometeu, não houve volta. Pela primeira vez conseguia se livrar de um situação que o incomodava há muito. O rapaz, que Marcelo conheceu quinze dias depois de terminar seu primeiro namoro, era gay e não se aceitava. “Gay não é uma coisa certa”, dizia sempre.

Visivelmente perturbado, o rapaz se auto anunciava um protegido de Deus e só por isso podia continuar tendo relações homossexuais. Obrigava Marcelo a se confessar ao padre toda semana para poderem comungar nas missas dos domingos.

Naquele domingo em que eu o encontrei, ele não foi à missa. Já não ia há anos. A chuva lá fora havia parado e tive de ir embora. Marcelo tinha outro compromisso. Iria se encontrar com o atual namorado. Estava meio ressabiado com o namoro. Com sete meses de relacionamento, o novo companheiro estava um pouco indiferente. Marcelo parecia prever que, daí a menos de um mês, outro relacionamento terminaria, mas desta vez de uma forma saudável.

*Marcelo é nome fictício que resolvi usar para preservar sua identidade

Semana GLBT
Esta semana é dedicada ao orgulho gay em Goiânia. O ápice da semana será no domingo, com a 6ª edição da Parada Gay da cidade, oficialmente chamada de Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transsexuais e Travestis). O evento inicia-se ao meio-dia, no Parque Botafogo (próximo ao Parque Mutirama). Durante a semana será realizada no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, a 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia, entre os dias 22 e 27. O ingresso custa R$ 1 por dia. Confira a programação:

Segunda
19h - Abertura - Tema: Cidadania e Direitos Civis: conquistas e ausências para a
população GLBT
20h - Vernissage – Homo queer remixed. Com curadoria de Hugo Siqueira (DF) e trabalhos de Alex Cerveny (SP), Astrounata Mecanico (SP), Clovie Masson (GO), Fernando Cardoso (MG), Fernando Carpaneda (DF), Florian Raiss (SP), Leo Brizola (DF), Lwolf (DF), Lincoln (DF), Marcelo Henrique (GO), Marcelo Salum (SP), Marcelo Solá (Go), Max Miranda (GO), Ronan Gonçalves (GO), Nazareno (GO), Zello Visconti (DF), Chikim Lopes (GO), Glenda Torres(DF/SP), Vinícius Moreira (GO)
21h - Filme: Stonewall (EUA, 99min, 1995)

Terça
12h30 – Filme: Hedwig – Rock, Amor e Traição (2000, 95min)
18h30 – Sessão curtas: Desejo proibido (2000, 30min), Mergulho noturno (2005, 19min), Laura, uma Diva do Babaduu! (2007, 22min)
20h30 – Filme: Short Bus (2006, 102min)
22h – Debate: Violência e Discriminação da População GLBT

Quarta
12h30 – Filme: Minha mãe gosta de mulher (96 min)
18h30 – Filme: Beautiful Boxer (2003, 116min)
20h30 – Filme: Café da Manhã em Plutão (2005, 135min)
22h – Debate: Mídia e representação: papéis e performances GLBT

Quinta
12h – Filme: Tempestade de Verão (2004, 98min)
18h30 – Filme: As filhas de Chiquita (2006, 52min)
22h – Debate: Qual o lugar da L no movimento pela diversidade em Goiás?

Sexta
12h30 – Filme: C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor (2005, 127min)
18h30 – Filme: Lado Selvagem (2004, 93min)
20h30 – Filme: Madame Satã (2005, 105min)
22h – Debate: Negritude e Homossexualidade

Serviço
Evento: 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia
Data: 22 a 27 de outubro
Local: Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, Rua 3 esq. c/ a Rua 9 – Centro
Ingresso: R$ 1
Informações: 3524-2541 (Goiânia Ouro)


Rodrigo Alves é jornalista e especialista em Jornalismo Literário

Foto: Murilo Ribas - www.flickr.com/photos/muriloribas

2 comentários:

Túlio disse...

É uma pena que histórias como essa não têm espaço também na grande imprensa... Eu, como homossexual, sinto falta de exemplos com gays em situações quaisquer (como seria essa reportagem sobre o beijo). Só falam de nós quando vão falar da homossexualidade em si. Isso é lamentável.

Rodrigo, gostei do blog! Vou voltar sempre aqui.

Abraço!

Rodrigo Alves disse...

É pena mesmo, Túlio! Isso é um pouco de ranço do preconceito arraigado na velha geração do jornalismo e da omissão de boa parte da nova (pelo menos aquela que tende a ser mais tolerante, pela modernização do pensamento). Mas acho que nossa geração está chegando para mudar isso. Abração, obrigado pelo comentário.