domingo, 25 de novembro de 2007

 

Nós, os bailarinos

O Baile, filme de Ettore Scola sobre a dança do tempo, da vida e da morte, é restaurado e lançado em DVD

Por Fellipe Fernandes

Dizem por aí que é no salão de baile que os dançarinos mostram quem realmente são por detrás das máscaras cotidianas. Muito mais do que se revelar, quem se arrisca a entrar na feira das vaidades de uma pista de dança assume também as únicas duas possibilidades que lhe são concedidas ao final de tudo: o desnudamento da fraqueza ou o frugal crescimento da coragem. Todo o resto existente entre esses dois extremos pode ser visto de maneira muito lírica no filme O Baile, do cineasta italiano Ettore Scola, que teve a cópia restaurada e que acaba de ser lançada em DVD.

Lançado em 1983, o filme indicado ao Oscar e ganhador do Urso de Prata em Berlim traça, em pouco mais de uma hora e meia de duração, a crônica nua de um grande salão de baile construído nos anos 30 onde, muito mais do que receber pessoas para a diversão, compartilha com elas as amarguras vividas naquele ambiente desde a época de sua inauguração.

O Baile, de Scola, é para além da verdade de seus personagens, um retrato de cada uma das pessoas que constroem o tempo em que vivem. Isto porque, dividido em seis períodos temporais diferentes, o filme se estrutura basicamente no diálogo intenso entre o aspecto sensorial da música (que também se relaciona com o tempo por meio das lembranças que ela suscita em cada um dos personagens) e o teatralismo das atuações que neste filme não usam, inteligentemente, o recurso da oralidade para a expressão de suas nuances.

Assim, o espectador, diante das personalidades reveladas ao longo da narrativa (em muitas vezes elas atravessam os anos na repetição de ações que formam os estereótipos humanos), viaja não só no tempo, mas ao interior de si mesmo, tentando se descobrir tanto de forma semelhante quanto diferente dos dançarinos de um baile muito maior que transcende o salão e que pode ser também chamado de vida.

Pés-de-valsa – Em O Baile, viaja-se através dos tempos embarcado na melancolia constante que é o relacionamento humano, seja com as outras pessoas, seja consigo mesmo ou, especialmente, com o viver que cada um leva à maneira que pode. Independente da atitude que se toma enquanto se atravessa a existência mundana lutando contra fantasmas, recalques e medos, compreender a vida como um grande salão de bailes pode ser muito mais libertador do que nos parece.

Aliás, este é um dos ensinamentos por trás de O Baile, além da viagem histórica por meio da música, dos tipos humanos e suas formas de expressar. Seja em 1936, quando surge a Frente Popular dando força à classe trabalhadora; ou logo na seqüência, quando os nazistas ocupam a Europa, durante a 2ª Guerra Mundial; ou em 1968, época em que estudantes radicais se apossam dos lugares físicos e de sua própria posição na sociedade, mesmo que tenha sido por felicidade, luxúria, desprezo, entre tantos outros sentimentos e pecados capitais do mundo, o baile há sempre de terminar melancolicamente, porque caminhamos todos para a morte.

A mise-en-scène é de tanta qualidade que, passado o primeiro estranhamento da falta de diálogos falados – decorrente de nosso adestramento por filmes cada vez mais barulhentos – descobrir quem é quem, como agem as pessoas do filme, de que forma abordam as outras pessoas ou se se retraem ainda mais em seus mundos privados de acesso impossível, torna o filme ainda mais lírico do que é. Atenção especial, é claro, para a trilha sonora fantástica de Vladimir Cosma e Gilbert Bécaud, que é componente essencial para a aura da obra.

A câmera normalmente se deixa parada, de frente para o salão de baile, ressaltando o fato de que estamos sempre representando papéis ao longo da vida. Ao espectador fica ainda mais evidente a sua condição de voyeur e, por mais questionável que isso possa parecer a cada um daqueles que têm consciência disso, muito mais prazerosa que ser aquele estereótipo que se representa em nós mesmos.

O Baile, por isso, deixa de ser uma mera ocasião para se tornar um grande evento de conflito de personalidades sobre a dança do tempo, da vida e da morte. Não estranhe se, ao final do filme, você se sentir desnorteado, sem respostas, como se não soubesse para onde ir quando lhe tirarem para a pista, a fim de conceder a quem quer que seja a honra de uma contradança. É normal, pode crer. Assim, deixo aqui um conselho para facilitar sua vida e que a mim me foi muito útil: apenas vá e dance. Apenas dance.

Serviço
Filme (DVD): O Baile (Le Bal) - França/Itália, 1983. 109 min. Drama
Direção: Ettore Scola
Elenco: Etienne Guichard, Régis Bouquet, Martine Chauvin e Danielle Rochard
Distribuidora: Platina Filmes
Preço Médio: R$ 30

Fellipe Fernandes é jornalista e especialista em Cinema

Um comentário:

Demas disse...

Fellipe,
coincidentemente, assisti à peça teatral "O baile" nesse final de semana. O filme do Scolla, vi há uns bons anos e ainda trago na memória o encantamento de um espetáculo brilhantemente dirigido, de maneira que - mesmo sem um diálogo sequer - chegamos ao final da projeção verdadeiramente apaixonados por cada um de seus personagens. Coisa que não aconteceu na mesma proporção no teatro, onde me perdi tentando captar os sentimentos de tantos dançarinos, visto que ao me fixar num casal, acabava por perder a vivência dos demais. Coisa que no cinema não acontece, porque somos guiados pelo diretor. Bom saber que o filme foi relançado: saí do teatro querendo revê-lo.
Abração