domingo, 11 de novembro de 2007

 

Yoko Ono, muito prazer...

Artista inaugura exposição em São Paulo e mostra que há muito por debaixo da sombra deixada por John Lennon

Por Fellipe Fernandes

De todas as matérias sobre a exposição de Yoko Ono em São Paulo que circularam pela cidade, apenas uma pede maior atenção nos murais do belo prédio do Circuito Cultural Banco do Brasil no centro da capital paulista, onde foi aberta neste final de semana a mostra Yoko Ono: Uma Retrospectiva. Ela perguntava na manchete: “Quem foi mesmo o marido dela?”

Muitos daqueles que foram na manhã de ontem à exposição na esperança de ver Yoko e conseguir dela um autógrafo vestiam camisetas e traziam discos daquele que hoje é o maior fantasma da artista: a presença constante da lembrança de John Lennon, ex-beatle, com quem foi casada e teve um filho.

No entanto, à parte também com vários representantes da comunidade nipônica que já comemoram junto à realização da mostra o Centenário da Imigração Japonesa celebrado no próximo ano, muitas das pessoas que enfrentaram a desorganização da equipe coordenadora do evento (marcada para as 10h, a abertura das portas só ocorreu às 11h30) tinham a intenção igualitária de tentar entender o que se passa na cabeça de um dos maiores ícones do século 20.

É a isso que Yoko Ono: Uma Retrospectiva se propõe. Dispostas em três andares, as obras reunidas trazem de volta exemplares de desde o início da carreira em 1960 aos trabalhos mais atuais, como por exemplo o intitulado Amaze, uma espécie de labirinto translúcido onde se pode entrar e tentar achar o caminho do centro. São diversos tipos de composições que vão desde as gravuras, passando pela escultura e chegando às instalações, que juntas tentam mostrar os elementos básicos que foram moldando a carreira de Yoko durante todos esses anos.

Aliás, essa exposição da artista quer desesperadamente relevar a importância do questionamento feito pela matéria jornalística exposta dentre as obras: independente do passado vivido, de quem participou ou não dele, se ela foi ou não o pivô para o fim do que foi um dos maiores grupos musicais de todos os tempos, ver Yoko Ono por outro prisma – que não o de Lennon – pode ser sim muito interessante e revelador.

Provocação – Quem tem medo de Yoko Ono? Pode-se responder sem prejuízo que quase todos aqueles não querem enfrentá-la nos embates artístico-psicológico que ela mesma nos propõe. Isso porque o trabalho de Yoko – independente dos julgamentos de gosto pessoal – questiona de maneira muito clara o conceito de arte, o objeto tomado por ela, tornando as fronteiras mais fluidas ao invés de endurecê-las, como normalmente faz o pensamento acadêmico.

Sua obra, que se auto-proclama pacifista, paradoxalmente conclama o espectador à guerra ideológica ao cobrar dele uma postura mais ativa. Há nesta exposição em São Paulo a possibilidade de se tornar co-autor de algumas obras como Add Colour Painting (na qual você adiciona traços e desenhos em diversas cores) e Paiting to Hammer a Nail (que nos convida a martelar alguns pregos em nome da expressão artística).

Já que o embate socrático nessa relação estética entre o espectador e a obra de arte é o mais apreciado, o espectador pode responder com a pergunta: até que ponto posso ser co-autor de uma idéia que já me foi disposta por meio de instruções, sendo apontados ainda o material a ser usado e uma ante-noção do que precisa ser feito? Essa liberdade orientada só nos dá a sensação de alívio diante de nossa vontade inestimável de uma recusa.

No entanto, mais do que simplesmente o diálogo e a imersão no que poderia ser a arte em si, Yoko Ono não tem vergonha de expor suas referências sócio-políticas de forma a provocar o espectador e exigir dele uma reação – normalmente o pêndulo varia entre aquele que ama e o outro que odeia. Isso só mostra que, na intenção de ser vista longe da lembrança da idolatria em relação ao finado marido, ela já consegue mostrar, na paráfrase de Ari Barroso, o que é que a japoca tem.

Quem estiver em São Paulo e der uma passada pela exposição, logo vai saber que, no bom português das ruas, ela tem muito balacobaco.

Serviço:
Exposição
: Yoko Ono: Uma Retrospectiva
Data: de 10/11/2007 a 3/02/2008
Local: Circuito Cultural Banco do Brasil – Rua Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo – SP
Informações: (11) 3113-3651 / 3113-3652


Fellipe Fernandes é jornalista e especialista em Cinema

2 comentários:

Helen Fernanda disse...

Acho que minha auto-contratação como divulgadora voluntária do blog já está dando resultados porque antes o Plural Blog nem aparecia na busca do Google, agora já aparece.

Continuem escrevendo que eu continuo divulgando.

Renato disse...

O Blog tá excelente, gente!
só galera boa escrevendo...
Parabéns mesmo!
abços