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terça-feira, 1 de julho de 2008

 

Uma trilha para fãs

A trilha sonora de Across The Universe, de Julie Taymor, é melhor que o filme e faz algumas releituras pop da vasta obra dos Beatles

Por Rodrigo Alves

Lembro-me como hoje da primeira que escutei Beatles, sabendo que era Beatles. Digo sabendo, porque desde que me entendo por gente já escutava (e curtia, a meu modo) composições deles. Tinha 9 anos de idade. Foi amor à primeira audição.

Foi com grande surpresa que ao assistir a Across the Univese, da cineasta especialista em musicais Julie Taymor (leia a crítica do filme clicando aqui) reafirmei que os rapazes de Liverpool ainda me tocam e surpreendem. Para compor a trilha sonora que embala a história de amor dos personagens beatlerianos Jude (Jim Sturgess) e Lucy (Evan Rachel Wood), a diretora escalou jovens atores que não são virtuoses do canto mas reinterpretam, com um delicioso tom pop, sucessos do quarteto.

O resultado de algumas destas releituras – que superam em qualidade a narrativa do filme – está em Across The Universe – Trilha Sonora. Entre os destaques estão as inconfundíveis All My Loving (na voz de Jim Sturgess), I Want To Hold Your Hand (T.V. Carpio), Blackbird (Evan Rachel Wood), Hey Jude (Joe Handersen), Let It Be (Carol Wood), Across The Universe (Jim Sturgess), Strawberry Fields Forever (Jim Sturgess) e Lucy In The Sky With Diamonds (por um divertido Bono Vox, que faz pontinha no filme). O álbum fica devendo, porém, pérolas como Girl e All You Need is Love, também presentes no filme.

As versões inseridas neste álbum estão editadas e mais enxutas do que na película, mas em essência demonstram seu espírito: gostinho dos anos 1960 com jeito de anos 2000. Puristas podem estranhar, de início, a roupagem moderna que abusam de sons sintéticos. Mas o tripé baixo, guitarra e bateria continua firme, enriquecido às vezes com orquestra de instrumentos clássicos. Uma roupa pop atualizada não fez mal aos Beatles.

Serviço
CD: Across The Universe – Trilha Sonora
Artista: Vários
Gravadora: Universal
Preço médio: R$ 29,90
Disponibilidade: fácil
Escute e assista: Hey Jude


Rodrigo Alves é jornalista e especialista em Jornalismo Literário

quinta-feira, 26 de junho de 2008

 

Vínculos apaixonantes

Congo to Cuba, da Coleção Putumayo, mostra a saborosa mistura de ritmos proporcionada pela fusão musical entre Cuba e África

Por Erika Lettry

A exemplo da sonoridade brasileira, cheia de influências da África e de outros países, Cuba sempre trouxe em sua essência os ritmos daquele continente. Esta característica pode ser facilmente identificada no CD Congo to Cuba, que faz parte da coleção Putumayo World Music. O selo explora a multiplicidade cultural de vários lugares do mundo, incluindo o Brasil.

Além do documentário Buena Vista Social Club, que ajudou a divulgar a música cubana nos quatro cantos do mundo, há uma riqueza impressionante de ritmos naquele país. Congo to Cuba é apenas uma amostra.

O disco apresenta uma seleção de músicos notáveis como Chico Alvarez, novaiorquino que ainda criança foi morar em Cuba e incorporou a musicalidade. Congo to Cuba abre com sua música sensual, Val´Carretero, que ele gravou para o selo SAR nos anos 80. Esta canção tem a participação na trombeta do famoso músico Chocolate Armenteiros. Chico Alvarez liderou vários grupos de músicas cubanas nos anos 70 e tinha um programa na emissora WBAI, em Nova York.

Mama Sissoko também representa a fusão Cuba-África no CD com a música Safiatou, inspirada na salsa. Mama Sissoko alcançou a fama quando tocava com o grupo Super Biton de Segou, uma das orquestras mais populares do Mali (país onde nasceu) nos anos 70 e 80.

O destaque do disco, contudo, é Gnonnas Pedro (foto), com a dançante Yiri Yiri Boum. Nascido em Beni, na África Ocidental, ele é considerado um representante legendário da salsa africana. Suas canções são bastante inspiradas nas cubanas e produziu muitos imitadores e apaixonados pelos continentes.

Claro que o disco também traz ritmos mais lentos, como Le Monde Est Fou, interpretada por Balla Tounkara. A música é uma versão de Hasta Siempre, uma homenagem a Che Guevarra, composta por Carlos Puebla. Congo to Cuba é um disco para se ouvir com atenção, estudar os ritmos e, claro, sair a bailar. Afinal, quem resiste à sensualidade desta união?

Congo to Cuba
1-Chico Alvarez. Val´Carretero (Cuba)
2-Mama Sissoko. Safiatou (Guinea)
3-Alfredo Valdés. Canto a La Vueltabajera (Cuba)
4-Gnonnas Pedro. Yiri Yiri Boum (Benin)
5-Tshala Muana. Lekela Muadi (Congo)
6-Balla Tounkara. Le Monde Est Fou (Mali)
7-Laba Sosseh. Son Soneate. (Gâmbia)
8-Monte Adentro. Igualita que Tu (Cuba)
9-Chocolate Armenteros. Ritomo de Mi Son (Cuba)
10-Mama Keita. Tougnato (Guinea)
11-Pape Fall. African Salsa (Senegal)


Serviço
CD: Congo To Cuba
Artista: Vários
Gravadora: Putumayo
Preço médio: R$ 36,90
Disponibilidade: média

Erika Lettry é jornalista e especialista em Jornalismo Cultural

sábado, 10 de maio de 2008

 

Pop inteligente

Em Coco, lançado ano passado, Colbie Caillat estréia no mercado fonográfico com músicas bem melhores que a média dos similares

Por Rodrigo Alves

Se existe um limbo entre o pop e a música sofisticada ele é composto por artistas como Colbie Caillat (foto). As músicas deles dificilmente serão obras-primas, mas tornam-se sempre agradáveis aos ouvidos dos mais exigentes e da massa consumidora. A linha entre bom gosto e pieguice é tênue, mas alguns conseguem produzir bons trabalhos como Coco, álbum de estréia de Colbie.

A cantora e compositora consegue unir características boas de Jack Johnson, dono de um excelente som acústico, e a interpretação de Norah Jones (outra componente do limbo). Ela não é chegada a ousadias vocais como Joss Stone, decisão muito acertada. Seu trabalho lembra cantoras mais experientes como Dido e Fiona Apple. A lição veio de dentro de casa. Colbie, hoje com 22 anos, é filha do produtor Ken Caillat, que já produziu grandes nomes como Alice Cooper e Herbie Hancock. Compõe e canta desde a adolescência.

A jovem californiana tem em suas letras músicas que falam de amenidades como o amor, o amado perfeito e a felicidade em estar vivo – como não poderia deixar de ser dentro da roupagem pop. Mesmo assim, até em melodias que têm letras repetivas, como Oxygen (escute clicando no link abaixo), é impossível passar incólume, sem se apaixonar pelo timbre da garota, e o hit acaba grudando.

Internet - Colbie teve seu primeiro sucesso na internet. Ela fez o que é para a maioria o caminho inverso: primeiro estourou no MySpace, onde Bubbly, carro-chefe de Coco (lançado ano passado) chegou a alcançar o top 10 das paradas americanas. A força lhe rendeu espaço na indústria fonográfica. Antes de finalizar o disco de estréia, a cantora chegou a disponibilizar algumas das músicas do repertório para serem baixadas na rede. A estratégia deu certo.

Grande parte do mérito do sucesso como cantora cult – que abarca um público que vai dos 20 aos 40 anos, principalmente – é a produção acertada de Mikal Blue. O produtor apostou no foco da sonoridade leve das canções, que além de Colbie foram compostas por Jason Reeves. Letras coma as de Bubbly, Tied Down e Tailor Made tentam fugir – mesmo que não consigam completamente – da estrutura introdução rápida e refrão grudento já nos primeiros segundos. Sinal de que também há certa sofisticação no pop.

Serviço
CD
: Coco
Artista: Colbie Caillat
Gravadora: Republic
Preço médio: R$ 33
Disponibilidade: fácil

Link: escute Oxygen






Rodrigo Alves é jornalista e especialista em Jornalismo Literário

Fotos: Divulgação

domingo, 6 de janeiro de 2008

 

O nosso samba

Entenda como a música considerada “nossa” aos poucos foi sendo construída para se tornar legítima representante de brasilidade

Por Erika Lettry

No ano passado o samba foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, sob registro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sambistas famosos como Nelson Sargento comemoraram o reconhecimento declarando que “o samba é agora cidadão brasileiro com todas as letras”.

O reconhecimento, para muitos, foi tardio. Afinal de contas, há anos o gênero musical é referência dentro e fora do Brasil, tido como símbolo maior de nossa brasilidade. Não à toa compõe a famosa tríade que muitos estrangeiros que pisam por aqui repetem sem o menor pudor: o Brasil é lugar de “samba, futebol e mulher”.

Mas afinal, de que forma o samba conseguiu alcançar o status de gênero nacional por excelência? O antropólogo Hermano Vianna arriscou algumas respostas no livro O Mistério do Samba. Retrocedendo em alguns pontos da história do país, ele mostra que samba tornou-se componente da identidade do brasileiro. Menos pela índole das pessoas que por uma série de construções que abarcam, de certa forma, uma verdadeira força-tarefa na tentativa de unificar o Brasil usando a música como referencial.

Samba pela história - Datar precisamente o momento da penetração da cultura popular nas rodas da elite brasileira não é fácil. Muitas suposições e pouca análise criaram mitos arraigados como, por exemplo, o de que o samba deixou de ser subitamente um ritmo marginal do começo do século passado (tocado apenas nas favelas, pelos “malandros”) e passou a ser aceito pela classe dominante, até chegar ao momento “mágico” em que foi nomeado símbolo do Brasil.

Em seu livro, Hermano Vianna mostra que esta passagem não foi súbita e nem mesmo tão desinteressada como muitos acreditam. O antropólogo enumera vários nomes (como Catulo da Paixão Cearense e Laurindo Rabello) que, com suas modinhas, lundus e toadas sertanejas, fizeram sucesso entre a elite brasileira e deram espaço para que o ritmo nacional ascendesse.

Esta pequena ascensão era, contudo, apenas um esboço do que viria. A valorização das “coisas do Brasil” só ganhou contornos mais nítidos quando se acelerou a discussão sobre a descentralização do país. O problema da unidade da pátria ganhou notoriedade entre os intelectuais como, por exemplo, Afonso Arinos, tendo mais tarde seu apogeu com Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala.

O projeto de unificação nacional, embora já tivesse sido esboçado em algumas situações, não chegou a ser algo claramente definido. Somente com a chegada da República é que se sentiu verdadeiramente a necessidade de construir um símbolo nacional que substituísse o da coroa.

O que ocorreu, entretanto, foi a criação de oligarquias que valorizaram ainda mais a regionalização do país, dificultando o projeto de centralização. Foi neste período que prevaleceu a famosa política café-com-leite, quando as oligarquias aproveitavam deste traço descentralizador para dominar o país.

Construção - Essas tendências regionalistas só foram “sufocadas” em 1930, quando o gaúcho Getúlio Vargas chegou à presidência da República. E é justamente nesse período que o samba consolida-se verdadeiramente como ritmo nacional, em uma construção que uniu a política, a intelectualidade brasileira e as camadas populares.

Tais tendências de valorização do nacional não tinham a ver com uma volta às raízes do Brasil, mas sim com a criação dessas raízes. O modelo de autenticidade do Brasil não foi fruto de uma escolha de algum modelo regional de brasilidade, mas foi fabricado após a ascensão de Getúlio Vargas unindo os diversos elementos do país.

Hermano Vianna considera o final dos anos 1920 como o período de nacionalização do samba, tendo como mediadores músicos, representantes do governo e intelectuais como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Gilberto Freyre. Segundo o estudioso, eles teriam papel fundamental na execução de um processo de criação da identidade brasileira, tendo o samba como principal elemento. Aquele que seria considerada como a “nossa música”.

Erika Lettry é jornalista, especialista em Jornalismo Cultural e autora da monografia O Brasil de Ruy Castro: O Jornalismo e a Construção de Uma Identidade Cultural Brasileira

Foto: Mantelli
(captada no site Flickr)

domingo, 9 de dezembro de 2007

 

No embalo de Paris

French Café traz canções de artistas como Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot. Uma verdadeira viagem à França, sem sair de casa

Por Erika Lettry

Dizem que os cafés culturais são a marca de Paris. Tanto é verdade que a história da música popular francesa está intimamente ligada a estes lugares, que até hoje revelam e consagram talentos das mais variadas vertentes.

Pois entrar no clima de lá, mesmo sem colocar os pés na Cidade Luz, é mais fácil do que se pensa. Uma seleção com 13 canções de artistas novos e da velha guarda francesa pode ser encontrada no CD French Café, do selo norte-americano Putumayo.

Quem tem uma leve quedinha pela sonoridade da língua francesa e por aquela sensação de “boa vida” que as músicas da França trazem, não vai conseguir resistir quando, por acaso, cruzar com o disco em alguma loja. Pois foi exatamente o que aconteceu comigo. Em meio a um arsenal de opções expostas nas prateleiras de música, dei de cara com French Café. E quando liguei o aparelho para ouvir, só por curiosidade, acabei não resistindo à melodia Marilou Sous la Neige, de Serge Gainsbourg. Não por acaso o músico era um ícone na França (morreu em 1991), e influenciou diversas gerações no país.

O álbum traz ainda as vozes de Paris Combo, Brigitte Bardot (que, surpreendentemente, tem uma voz linda) e Mathieu Boogaerts. Impossível esquecer Barbara cantando Si la Photo est Bonne, com aquela toada suave de cantoras como Carla Bruni, que virou mania nas escolas de música francesa, ou Enzo Enzo interpretando Juste Quelqu´um de Bien. Je M´Suis Fait Tout Petit, na voz de Georges Brassens, causa ímpetos de sair dançando por aí.

Muitas canções do CD refletem influências do jazz, eletrônica e ritmos ciganos e africanos. Afinal, a França é conhecida pela abertura a sons “exóticos”. Nesta seleção em especial é interessante notar como, apesar da junção de tantos elementos externos e inovações rítmicas, é possível ainda notar a essência dos cafés franceses - mesmo sem nunca ter ido a algum. Mistérios da globalização.

Putumayo – O selo Putumayo investe em world music há mais de dez anos. Fundado pelo sociólogo americano Dan Storper, une em coletâneas músicas de diversos lugares do mundo. Quer conhecer o som da Costa do Marfim, Vietnã ou República Dominicana? Não precisa nem sair de casa. É só comprar os discos do selo.

Além das canções, que por si só valem o investimento caro (um CD não sai por menos de R$ 30), o visual também é marcante. Todas as compilações são ilustradas pela artista inglesa Nicola Heindl, que busca reproduzir os símbolos culturais dos países em questão.

Os discos, que antes precisavam ser importados, agora são distribuídos por aqui.

Serviço
CD: French Café
Artista: Vários
Gravadora: Putumayo World Music
Preço médio: R$ 34
Disponibilidade: média

Erika Lettry é jornalista e especialista em Jornalismo Cultural

sábado, 3 de novembro de 2007

 

Sertanejo puro, country ou pop-romântico?

Quatro músicos do mundo sertanejo – Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Marrequinho e Chico Lobo – discutem novos rumos do gênero

Por Erika Lettry

O sertanejo é um gênero com diversas ramificações ou deturpações? Até que ponto são válidas as influências estrangeiras neste estilo musical? O que separa música caipira, sertaneja e romântica? Estas perguntas são mais complexas do que parecem e abarcam, como em toda polêmica, opiniões divergentes. O Plural Blog pediu que quatro músicos ligados ao gênero (ou que já foram ligados) discutissem o assunto.

No debate constata-se que a globalização é um fato, mas ainda há resistência quanto a abrir mão de maneiras tradicionais em favor de costumes importados. Isto é especialmente explícito no universo da música sertaneja. A discussão sobre a pureza do estilo já correu mundo e criou celeumas no meio musical, sem previsão de acordo.

Enquanto alguns são veementemente contrários às influências externas, outros as enxergam como necessárias na evolução do gênero. Na primeira corrente encontra-se Rolando Boldrin (foto acima). O artista foi um dos primeiros a dedicar programas de televisão à música brasileira de inspiração regional e possui um vasto repertório de canções caipiras que reúne cateretês, toadas e modas. "Qualquer influência estrangeira na nossa música eu pessoalmente não gosto", avisa o compositor, em entrevista ao blog.

Além disso, ele critica o fato de temas rurais terem cedido espaço às músicas que falam sobre a cidade e que entoam brincadeiras de duplo sentido. "Uma mudança triste de rótulo que descaracteriza nossa música pura", lamenta. Por isso, ele prefere dividir o gênero em três outros estilos. "É erroneamente chamada de música sertaneja um produto fonográfico de alto consumo, onde aparecem duplas de cantores românticos. Na verdade, música sertaneja é música nordestina. Já a música caipira é aquela cantada em dueto com temas simples, sem apelação, coisa quase extinta", dispara Boldrin.

Ao contrário dele, o músico Renato Teixeira (foto ao lado) vê como positiva a influência externa na evolução da música sertaneja. Mas também prefere classificar esta evolução de forma diferente, decretando inclusive que a música caipira já não existe mais. "Foi o que fizeram Tonico e Tinoco há muitos anos, por exemplo. Depois disso houve uma dissidência que culminou no sertanejo, que é algo que o Almir Sater e eu fazíamos há alguns anos. Eu particularmente já abandonei isso e faço folk-brasileiro", esclarece.

Adaptação - Renato explica que houve realmente uma antropofagia, ou seja, os músicos adotaram o estilo country importado dos Estados Unidos, porém adaptaram o que vinha de lá à realidade brasileira. "Num mundo globalizado a gente não tem que se preocupar com influências. Elas fazem parte. Temos que usar o que serve para gente. O sertanejo-country é uma adaptação", diz. Ele elogia o trabalho de duplas que trabalham neste sentido, como Zezé di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó. "São músicos expressivos que vieram para ficar. Pode-se até não gostar deles, mas é ignorância negar suas qualidades. Eles não são artistas banais: vieram para ficar", afirma.

Na mesma linha de Teixeira, o compositor goiano Marrequinho não reclama da influência estrangeira na música sertaneja. Ao contrário, ele alerta que muito antes da música country, o sertanejo já havia sido influenciado por canções mexicanas e paraguaias. "No início a música sertaneja era autenticamente brasileira. Saía das roças e da mesma maneira era executada nas rádios. Depois foi chegando às cidades e algumas pessoas começaram a explorar a analogia entre as músicas mexicanas e paraguaias com a sertaneja", descreve.

A influência country, na opinião do compositor, é relativamente recente e está mais ligada às questões de montagem e instrumentalidade do que à música propriamente dita. Ele encara como positiva essa evolução ao longo dos anos. "O sertanejo era muito limitado, os ritmos eram pobres. Com as influências ele foi se desenvolvendo e só chegou aonde chegou por causa disto", avalia. Contudo, ele faz ressalvas quanto aos dias de hoje. "A música sertaneja quase que se desligou de sua origem. Virou MPB em dueto. Não digo isso como uma crítica, mas uma análise", afirma.

Aculturação - Para o músico mineiro Chico Lobo (foto ao lado) a questão principal da discussão está relacionada às definições. Ele acredita que a partir do momento em que a música sertaneja passou a sofrer influências externas, deixou de poder carregar este nome. "O que me incomoda não é a música sertaneja atual, mas o fato de muitos cantores terem se apropriado do termo. Quando o country começa a imperar e as músicas daqui deixam de falar de suas origens, entra-se num processo de aculturação", critica.

Por isso, hoje ele também se refere à música sertaneja de raiz como música caipira, embora o faça a contragosto. "A única coisa que este pop romântico que chamam de sertanejo guardou foi a tradição de se cantar em dupla", alfineta. Segundo ele, a música de raiz deve estar essencialmente ligada ao povo. E isso quer dizer que não pode evoluir? "Claro que pode. A música caipira não é peça de museu, ela é sempre dinâmica, aberta a novas leituras. Mas estas devem partir de dentro, não de influências externas", defende.
Erika Lettry é jornalista e especialista em Jornalismo Cultural

Fotos: Rolando Boldrin em acervo da TV Cultura; Renato Teixeira por Marcelo Rossi; Chico Lobo em acervo pessoal