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quinta-feira, 31 de julho de 2008

 

Jovino e a onça

A incrível história do calunga guia na Chapada dos Veadeiros sobre a felina que come gente

Por Rodrigo Alves

Seu Jovino não é do tipo que se incomoda com longas distâncias. Especialmente se forem percorridas a pé. Ele nasceu Josino Faria da Silva, mas para não confundí-lo com a irmã Josina, os amigos alteraram o nome.

Jovino veio ao mundo há 62 anos em uma pequena comunidade calunga (descendentes de africanos em locais isolados de Goiás) .

Chamado Vão de Almas, o local é distante a cerca de 80 Km da pequena Calvalcante (GO), que por sua vez fica a 520 km de Goiânia, nordeste goiano.

Para se chegar lá é preciso andar léguas, como ainda dizem os calungas. Primeiro de carro (com tração 4x4), depois em lombo de burros. Por fim, à pé. Leva-se um dia inteiro.

Graças aos tempos, Jovino vive atualmente em Cavalcante. O conheci graças à profissão que exerce hoje, guia naquela porção da Chapada dos Veadeiros. “Eita, já levei vida muito difícil. A gente andava descalço no meio dessas matas. Criava casca no pé”, lembra ele, ex-lavrador.

Hoje, quando entra na mata é para guiar turistas. A maioria só conhece a porção da chapada situada no município de Alto Paraíso e recentemente tem descoberto também a região.

Há pouco mais de cinco anos, Jovino se empenhou em ser guia nas trilhas turísticas. Fez curso de primeiros socorros em Goiânia e passou a conhecer mais sobre a história da região. É considerado o melhor guia de Cavalcante. Se algum dia você tiver oportunidade de encontrá-lo, peça-lhe para contar histórias da onça.

Come sim – “O pessoal do Ibama diz que onça não come gente. Que não come que nada. Deixa ela ficar com fome pra ver”, desafia, em seu tom brincalhão e risonho. Caminhando à frente do grupo que faz a trilha, Jovino percebe que a turma se interessa pelo assunto. Não perde a oportunidade e nem o fôlego para contar a história.

Uma pegada deixada pela danada logo à frente nos surpreende. Por ali é a onça-pintada a dona do pedaço. A informação inspira medo em alguns andarilhos. “O que?! Passa aqui?”. Sorriso maroto, chapéu calmamente reajeitado e Jovino não perde o pique.

“Podem dizer o que quiser, mas eu não confio que ela só come bicho.” Nossa atenção é a de netos prestes a escutar a história da avó. Estávamos sem ar diante de tanta subida, mas fomos esquecendo o mal-estar.

À tarde - Contam por aí, que no fim de uma tarde uma senhora calunga saiu rumo a uma pequena plantação ali por perto. Foi apanhar açafrão, aquele que tempera a comida. “A véia começou a fazer um montinho do lado da plantação. Tinha Sol ainda”, conta Jovino. Com paciência e pausas, emenda: “Nem era noite ainda, sabe? E a onça só sai tarde da noite. Então a véia foi despreocupada.”

“Naquele dia não sei o que aconteceu”, completa. “A onça devia ter passado noite sem caça”, arrisca. Passado um tempo, o sumiço da velha começou a preocupar. “A filha deu por falta. A madrugada entrou e nada.” A suspeita era de que algo pior acontecera. “Pensaram certo. No outro dia foram procurar.”

No local onde a calunga amontoara o açafrão, havia um rastro de sangue. Nenhum outro sinal de ataque, porém. Mas não tardou para vir confirmação. “Nunca encontraram o corpo”, diz o calunga em tom sério, mas sem demonstrar tratar-se de uma conhecida. “A única coisa que conseguiram achar foi o pé da véia”, fala, ao risos.

Com açafrão – Em meio às caras perplexas, nosso guia percebe o total interesse pela história. Percebo que se satisfaz. Muitos não se dão conta de que conseguimos subir boa parte da trilha. Sem notar o desconforto físico, sem reclamar. O interesse continua. Pelo caminho encontramos mais pegadas da bichana.

O medo inicial de alguns de sermos atacados em plena luz do dia aos poucos se dilui. “Ela só sai realmente de noite”, afiança Jovino com seu marcante sorriso maroto. A esta altura nossos passos já estão mais leves e o guia, satisfeito. Sobra até espaço para uma piadinha infame.

“A onça é esperta, sabia seu Jovino?”, brinca um dos andantes. “Ah, é? Por quê?”, retruca ele, com cara de pimpão, imaginando a resposta acompanhada dos risos inevitáveis. “É que ela já comeu a velha temperada”.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

 

Destino de um Rei sem súditos

Zaguinha, o “rei da embaixadas”, volta às ruas de São Paulo depois de ser atração de TV e contratado de empresa de material esportivo

Por Thiago Arantes

Uma nota de R$ 2 repousa dentro do chapéu preto e branco, encardido, sobre as pedras portuguesas da Rua 15 de Novembro, Centro de São Paulo. O artista pede mais. "Só vou começar o show quando tiver três reais." Percorre a platéia com os olhos, mira 20 alvos, possíveis contribuintes. O tempo passa, o público se dispersa. O show começa, tardiamente, para duas pessoas – um senhor de bigodes brancos, antigo dono da nota de R$ 2, e este repórter.

O artista é Manoel da Silva, 55 anos. Manoel, estatura mediana, olhos pequenos e cavanhaque pela metade – que forma a letra "C" – é Zaguinha, o "rei das embaixadas". Alagoano de Murici, ajudante de pedreiro, que descobriu o talento para equilibrar bolas e objetos aos 32 anos. "Estava jogando sinuca e uma bola caiu da mesa. Comecei a brincar e vi que levava jeito." Não parou mais.

Em 1994, decidiu tentar a sorte em São Paulo. "Era ano de Copa do Mundo, a chance de crescer e aparecer". Primeiro, Zaguinha apareceu. Foi no intervalo da partida entre Brasil e Camarões, ao lado do telão da TV Globo, no Centro da cidade, fazendo embaixadas com um coco. Virou "Zé do Coco".

Faltava crescer. E Zaguinha cresceu cinco anos depois, em 1999, quando foi estrela de um quadro no Esporte Espetacular, também da Globo. "Falei que eu era o melhor do mundo e propus um desafio. Ninguém me venceu." Foram 14 semanas, uma dúzia de rivais derrotados. Zaguinha não ganhou dinheiro. Mas, colocado de lado depois de esgotar os desafiantes, conquistou um patrocinador. Por sete anos e dois meses, o "embaixador" – como define sua profissão – foi contratado da Dal Ponte, empresa de material esportivo (na foto, em viagem aos Estados Unidos, em campanha).

O acordo acabou em março do ano passado. Não foi renovado. "Eles mudaram a política da empresa, e eu dancei. Mas foi uma época boa, reformei minha casa, consegui melhorar minha situação."

De volta ao Centro - Foi à procura de um novo patrocinador que Zaguinha voltou às ruas do Centro no início de setembro. "Aqui é um lugar que conheço bem, trabalhei por três anos, entre 1996 e a Globo."

Os tempos em que era atração de TV estão registrados no pequeno espaço que o "rei das embaixadas" ocupa no calçadão. No chão, ao lado do chapéu encardido e de um campinho de futebol em que estão dispostas bolas de seis tamanhos, Zaguinha espalha folhas de papel sulfite com fotos impressas em baixa qualidade.

Nelas, o embaixador está ao lado de técnicos, celebridades instantâneas e ex-jogadores. As imagens estão distorcidas. Não bastasse a impressão ruim, a primeira chuva da primavera paulistana borrou as recordações. A tinta escorreu pelos papéis.

Caso se canse de olhar os borrões de seu passado, Zaguinha pode transformar as impressões, também, em instrumento de trabalho. Dá para fazer embaixada com bola de papel? "Claro que dá. Eu faço embaixada com qualquer coisa. São mais de 100 itens na minha lista, é só pedir". Às 13 horas de uma ensolarada quinta-feira, 27 de setembro de 2007, não havia ninguém além do senhor de bigodes brancos, o antigo dono da nota de R$ 2, para fazer o pedido.

"Faz com a bolinha menor, então." Zaguinha olha para seu campinho e pega uma esfera de metal, 2 mm de diâmetro. Toca uma, duas, dez vezes nela com os pés, sem deixar cair. O homem faz sinal de positivo. "Muito bom, muito bom". Vai embora.

Zaguinha agradece. Seu companheiro de show, o também embaixador Fábio Peixoto, 24 anos, está com a expressão fechada. "Se você tivesse feito logo o show, o povo não teria ido embora." Os dois trabalham juntos desde que Zaguinha decidiu voltar para as ruas. "O Fábio está aqui há mais de um ano. Eu cheguei agora, de volta. Viramos sócios."

“Até com abacaxi” - Embora trabalhem juntos, os dois têm estilos diferentes. "Eu acho que é preciso evoluir. Se o Ronaldinho inventa uma embaixada, eu vou fazer, também. É preciso estar sempre ligado nas novidades", diz Fábio. Zaguinha discorda. "Tudo o que eu faço é original. Eu inventei a embaixada com bola de prego, fui o primeiro a fazer com bolinha pequena, fiz com frutas, com bolas de outros esportes. Até com abacaxi eu fiz. Por isso que eu sou o rei, eu sou diferente."

Mas a "diferença" de Zaguinha chegou ao limite. "Não tem como fazer embaixada com uma bola menor do que esta", diz, apontando para a esfera que acabou de equilibrar. E então, o que fazer? Quais as novidades? "Não tem o que fazer, não tem novidade. Não posso fazer embaixada com uma bola que não consigo ver." Com a bola de futebol, faz 170 embaixadas por minuto, e já chegou à marca de 8 mil em oito horas de show. "E nunca errei ao vivo. Não fico nervoso porque faço o que sei fazer."

Mas se nem o "rei das embaixadas" vê novidades pela frente, é porque o futuro da arte pode estar em perigo. E está. "Todo mundo é desunido, esse é o problema. Tem muito príncipe e bobo da corte por aí dizendo que é rei", diz Zaguinha. Fábio, o sócio, discorda novamente. "Zaguinha fala demais. Ele foi rei faz tempo, tem que ver quem é o rei agora."

Os dois começam a discutir. Tentam levar a conversa em um clima de provocação sadia. Não conseguem. Fábio chama o sócio de "metido", diz que Zaguinha "vive de um passado distante". A resposta vem em tom professoral. "Você é jovem, tem muito que aprender, ainda. Eu sou o rei e tenho as provas em vídeo. Coloca na internet 'rei das embaixadas' e vê o que aparece." Aparece o site de Zaguinha. Sem atualizações desde 2000.

O diálogo ríspido chama a atenção dos pedestres. "Não vai ter mais show?", pergunta um jovem de pele escura, bigode proeminente e casaco amarelo – fez frio em São Paulo durante toda a semana. Fábio sorri sem graça, Zaguinha também. Os dois concordam, enfim. "Pensamos de forma diferente, não adianta", diz o "rei". "Não adianta, mesmo", reforça o sócio.

Recomeço - A parceria chega ao fim. Ambos parecem aliviados. Até sorriem. "Não estava dando certo mesmo", diz Fábio. "E não pense que a culpa foi sua!", brinca Zaguinha com o repórter. Fábio diz que continuará onde está. Na 15 de Novembro, sob a sombra de uma árvore esguia, último artista de uma fila que tem, às 15 horas de quinta-feira, cinco pintores e três hippies artesãos.

Zaguinha ainda não sabe qual será seu próximo palco. "É fácil arranjar um ponto novo, mas ainda não pensei nisso. Só sei que vou fazer embaixadas até o fim da minha vida, o lugar não importa.", diz, acelerando o passo. "Preciso ir, tenho aula à noite." Zaguinha cursa a 5ª série do Ensino Fundamental. Voltou a estudar neste ano depois de quatro décadas parado. "Antes eu achava que as embaixadas tinham me dado tudo o que eu precisava na vida. Mas a escola pode me dar muito mais." E vai embora, entre hippies, mendigos e profetas. Sem saber por onde recomeçar.

Thiago Arantes é jornalista

Foto: Acervo pessoal

sábado, 12 de janeiro de 2008

 

O homem que o metrô não matou

Um ano após o acidente das obras na estação de Pinheiros, em São Paulo, conheça a história do motorista Emerson Nascimento

Por Thiago Arantes

Às 14h11 do dia 12 de janeiro de 2007 – exatamente há um ano –, o motorista Emerson dos Santos Nascimento, 26 anos, sairia com a van 20041 para mais uma viagem da Casa Verde à estação da CPTM de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Era a hora dele. Emerson não foi. Cansado por ter começado a trabalhar às 4h30 e ainda sem almoçar, pediu para trocar a vez com um colega. Era Reinaldo Aparecido Leite, 40 anos, com a van 26487.

Cerca de 40 minutos depois, quando Reinaldo acabara de começar o caminho de volta, o veículo conduzido por ele caiu na cratera aberta pelo acidente nas obras da estação Pinheiros, linha amarela do metrô de São Paulo. O motorista, o cobrador Wescley Adriano da Silva e os três passageiros morreram soterrados. Um pedestre e um funcionário que trabalhava nas obras, também.

Emerson deixou o ponto na Casa Verde cinco minutos depois do colega. Assim que chegou ao local do acidente, tentou contato. Sem sinal. Oito meses depois, continua na linha Casa Verde-CPTM Pinheiros. Trabalha dez horas por dia, ganha R$ 1.200, faz entre oito e nove viagens – o trânsito da metrópole dita o ritmo.

Calado, nem por isso tímido, o motorista evita lembrar-se daquela sexta-feira. Abordado por este repórter – que procurava confirmar a história de que um colega havia trocado de horário com Reinaldo –, baixa a cabeça, suspira brevemente e, olhos fixos, diz em voz baixa. "Sou eu mesmo."

"Mas não gosto de falar disso", emenda. "E preciso ir embora. Só se você quiser me entrevistar dentro da van". São 17h30 de quinta-feira, véspera do feriado de 7 de setembro. Emerson ainda não sabe se vai ter folga para viajar. A van deixa o ponto final na Casa Verde com três passageiros.

Gente Boa - No primeiro semáforo, o motorista gira o pescoço para o lado, tenta manter contato visual comigo, fala que não deu entrevistas sobre sua história daquele 12 de janeiro. "Nunca me procuraram para falar disso. Uma vez a televisão me entrevistou, mas era para falar do Reinaldo. Ele era muito gente boa, trabalhador."

E por que não disse à TV que havia trocado de escala com ele? "Seria um desrespeito, né? A família passando por um momento difícil e eu falando que escapei, que era para ter sido eu.”

Reinaldo tinha esposa e três filhos. Emerson namora há dois anos. "Quando contei para ela que eu tinha trocado a escala com o colega que morreu, ela ficou em pânico". Emerson também ficou. Não dormiu até o início da manhã seguinte ao desabamento. "Só saí lá de perto às 2h. Ainda não sabiam o que tinha acontecido."

Morador do bairro da Casa Verde, quase vizinho do ponto final de sua linha, o motorista raramente usa o metrô. "Quase não ando, mas gosto. Acho seguro", diz. Sobre o acidente, resignação. "Obras assim sempre são perigosas. Meu pai perdeu parte da perna por causa de um acidente em uma obra também". O pai de Emerson, aposentado por invalidez, gosta de rádio. "Escuta o dia todo."

O filho parece não gostar. Durante a viagem, não liga o rádio da van. Divide seu tempo entre a entrevista, as piadas do bem-humorado cobrador David e outro rádio, o comunicador da empresa – ou, como diz, o "nextel". O trânsito testa a paciência dos passageiros, mas o motorista parece tranqüilo. "Estou em primeira, ponto morto, primeira, ponto morto...", diz ao rádio. Ri, olha para trás, "esse horário é assim mesmo".

Corinthians - Ao lado da estação Barra Funda do metrô, mais passageiros sobem, os assentos minguam, o calor aumenta. O ar condicionado luta contra a aglomeração. Perde. Um jovem com a camisa do Palmeiras acena. "É sofredor, mas deixa ele entrar", brinca o cobrador e corintiano David. "Entrar pode, mas sentar, não", emenda Emerson, também corintiano. "Você torce para o Corinthians?", pergunta ao repórter. Diante da resposta negativa, muda de assunto. "Já faz quanto tempo mesmo do acidente?"

São oito meses. "Parece que faz mais tempo. Mas também lembro como se fosse ontem", contradiz-se. Depois de buscar na memória uma referência temporal, concorda. "É verdade, são oito meses mesmo. Eu tinha começado três semanas antes como motorista. Fui cobrador, por três anos. Passei da contabilidade para a direção", brinca.

Uma passageira escuta a conversa e intervém. "Estão falando do acidente do metrô? Nossa, terrível, né?". Emerson acena com a cabeça, sempre tentando olhar para trás. O trânsito permite, a van quase não se move. A mão esquerda divide-se entre o volante e o comunicador. A direita repousa no câmbio em tempo integral.

O motorista responde às perguntas como se estivesse preparado desde sempre para enfrentá-las. E não se emociona ao pensar que poderia ser ele uma das vítimas. "Não faz bem pensar assim. Se eu ficar pensando que era para ter morrido, não vou conseguir viver direito". Abandonar a linha ou a profissão também está fora de questão. "Todo trabalho tem o seu risco. Não adianta fugir."

O trânsito melhora, o tempo passa, e a estação CPTM de Pinheiros se aproxima. A noite já encobre os últimos raios de sol quando Emerson, curioso, volta ao assunto. "A queda foi de quantos metros, será? Uns 50?". Foram 30 m, segundo informações fornecidas pela construtora responsável pelas obras. "Ah, não tinham chance de sobreviver. O carro ficou parecendo uma lata de sardinha. Eu vi quando tiraram".

“Você acostuma” - Desde o acidente, a rota da van foi desviada da Rua Capri – parcialmente destruída pelo desabamento – para a Eugênio de Medeiros. Cones, fitas bicolores de segurança, caminhões e funcionários das obras do metrô compõem a paisagem. Pedreiros reforçam as estruturas das casas nas ruas vizinhas. "Todo mundo ficou com medo", diz um segurança das obras da linha 4. Antes de falar, ele tira o crachá do peito.

Emerson já se acostumou. "Nas primeiras vezes que passei por aqui, senti uma coisa ruim. Mas aí você passa todo dia, tantas vezes, que se acostuma. Tem que acostumar, senão fica louco", diz, enquanto encosta a van no ponto final em Pinheiros.

O descanso habitual de cinco minutos é revogado por ordem do "nextel". "Tá bom, tá bom, vou agora, diretão", diz, sem praguejar contra o comando invisível. "Está puxado, hoje. Véspera de feriado é assim sempre". Há tempo para uma última pergunta, sobre o que mudou na forma de encarar a vida depois do acidente. "Nada. Eu sempre dei muito valor", diz Emerson. "Só não era minha hora."

Thiago Arantes é jornalista

Sobre o repórter
Tem 25 anos, nasceu em Goiânia, mudou-se para São Paulo há dois anos, depois de uma escala de outros quatro em Brasília. Embora goste de procurar personagens nas ruas da metrópole, o texto acima surgiu por acaso, em setembro de 2007, quando buscava uma pauta sobre o metrô paulistano.

Foto: O Globo

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

 

Sorriso como remédio

Para abrir 2008 conheça a história de Luzianira Campos, voluntária do Hospital das Clínicas de Goiânia

Por Hebert Regis

O azul das paredes reforça a sobriedade. De longe, as árvores circundam o quarteirão do Hospital das Clínicas (HC) de Goiânia, como se quisessem protegê-lo. Além das árvores e dos sentimentos que permeiam o ambiente do hospital, uma reforma na parte interna modifica a paisagem. Dentro concentra-se uma multidão apressada, sempre com uma queixa, seja de dor ou da espera para o atendimento. É sempre na agonia que as verdadeiras reações se afloram.

Nas mãos de médicos e enfermeiros a cura pode estar dentro de um frasco ou em cartelas de medicamentos. Só que naquele momento, os profissionais parecem desconhecer uma solução apaziguadora para os olhares perdidos, que buscam compaixão, ou mesmo, uma palavra consoladora. Já para Luzianira da Cruz Montes Campos (fotos) o remédio está além das cientificidades dos laboratórios.

É algo que não se encapsula, não se aprende na faculdade, e não se mensura por meio de instrumentos analíticos. De estatura baixa, no máximo 1,55 metro, quadril largo e rosto rechonchudo, ela parece crescer ao subir o pequeno degrau. O Sol, ainda brando por causa das nuvens, ilumina a sua camisa de estampa preta, mas manchadas pelos coloridos azuis e amarelos.Apesar de andar um quarteirão para chegar ao hospital, o coque feito em seu cabelo, já uniformemente grisalho, está intacto.

Mesmo com o vento que se abate naquela manhã nublada, ela anda graciosa, sem pressa, observando todos os detalhes, sempre com um sorriso no rosto, como se compartilhasse aquele momento com aquelas pessoas que estavam no corredor. Azar daqueles que não percebem as sutilezas do seu sorriso, um grande remédio para a alma. Se pudesse transparecer o momento de forma física, diria que em volta dela, uma luz com combinações de azul claro e amarelo fogo transcende por onde passa.

Voluntariado - Já no rol de entradas dos ambulatórios, ela agora vira onde a seta indica o nome voluntariado. Luzianira entra no pequeno corredor; continua devagar, com a experiência de quem já passou por tudo. As janelas abertas dos ambulatórios que dão para o corredor não a atrapalham. Olha em volta, vê salas com aparelhos de medir pressão, maca e mesa vazias. Desvia o olhar e segue em frente. A cena se repete nas outras duas janelas, também abertas, por onde atravessa. O silêncio só se quebra com um burburinho de um lugar ainda não identificado.

Na última sala do corredor, a senhora abre a porta por onde entra sempre uma vez na semana, sempre às quartas-feiras. O que se repete há cinco anos. Com os seus bordados a tiracolo, Luzianira finalmente adentra a sala do voluntariado. Saia azul até os joelhos e uma sandália marrom com um pequeno salto, talvez com uns dois centímetros, completam o visual desta bordadeira de mão cheia. Assim também estavam as suas mãos com um bordado ainda por terminar, que também segurava as linhas de crochê.

Como os seus bordados, a sala do voluntariado do HC também desconhece a uniformidade e os padrões. Um pouco maior que um quarto de seis metros quadrados, as suas paredes são brancas, assim como os dos ambulatórios vistos por Luzianira, mas o mosaico de cores e formas se completa com as roupas, de todas as tonalidades, doadas para serem vendidas nos oito bazares realizados durante o ano, geralmente em datas especiais. Destes eventos, é de onde o Voluntariado do HC tira a sua receita para ajudar os pacientes do hospital.

Luzianira senta e começa a bordar. Ao mesmo tempo, não deixa de prestar a atenção em quem entra na sala. Experiência demonstrada não apenas pelas rugas, mas pela calma que conduz a voz e os gestos, nunca bruscos. Veloz só a forma como entrelaça as linhas vermelhas no pano que vai formando pequenas rosas. No momento, estavam mais duas pessoas na sala, ambas cuidando dos adereços para a festa de fim de ano da instituição. Mas os seus ouvidos conseguiam captar os rangidos das portas, sempre seguidos de uma virada de cabeça.

Do sofrimento à doação - Voluntária desde os 17 anos, quando ajudou o Congresso Internacional Religioso e morava no Rio de Janeiro, Luzianira sempre fez trabalhos voluntários. “Sempre ajudei muito. E faço com o coração.” Não havia um motivo pré-estabelecido. Era só a vontade de ajudar. Uma atitude positiva não só em relação aos outros, mas à vida. De miss em Santa Helena, sua cidade natal no interior goiano, aventurou-se ao Rio de Janeiro, quando chegou aos 16 anos.

Depois foi para Brasília trabalhar na área de telemarketing. Em seguida se estabeleceu em Goiânia. Ajudava de forma esporádica, apenas com doações de alimentos e roupas. Nos últimos anos ela intensificou a sua doação ao movimento voluntário, quando o esposo morreu há seis anos de cirrose. “Nós andávamos por estes hospitais, e acabei conhecendo o trabalho do hospital das clínicas. Só depois fui conhecer os outros lugares”.

Pelas manhãs, Luzianira trabalha como voluntária em quatro instituições diferentes. Além do voluntariado do HC, também ajuda com os seus bordados o Grupo Nossa Senhora Auxiliadora e a Associação Goiana dos Diabéticos. No Hospital Araújo Jorge, também de Goiânia, distribui alimentos aos pacientes. Em todos estes locais, ela trabalha em média quatro horas semanais. Às tardes se ocupa com a máquina de costura, de onde ajuda com o sustento da casa.

Mas sempre lembra de produzir peças para o voluntariado. Já que o período de quatro horas, como ela mesma diz, é insuficiente para que possa produzir as peças. Ela vai sempre a pé aos locais, que não são tão distantes do seu apartamento que divide com a filha.

A osteoporose e a hipertensão não a impede de realizar seus afazeres, incluindo as idas aos trabalhos voluntários. Ao contrário, o trabalho voluntário ajuda a envelhecer de maneira ativa. O National Institute of Aging, uma entidade norte-americana, demonstrou recentemente que a atividade do voluntariado produz um bem que ultrapassa a fronteira do psíquico e chega à estrutura do próprio corpo.

Bem-estar - Em resultados práticos, isto quer dizer que as aquelas pessoas acima de 60 anos que fazem atividades voluntárias apresentam maior queima de calorias, 40% superior, do que os idosos que praticam exercícios regulares. A atividade do voluntariado também proporciona sensação de bem-estar, protege contra a ansiedade e a depressão, estimula a energia, ajuda a viver mais, eleva a auto-estima relacionada com maior acesso social, uso dos conhecimentos e sensação de ser útil a alguém.

Com o voluntariado, os idosos mantêm-se socializados, além de fazer atividades no momento em que se deslocam para ir ao local onde são voluntários. Para Luzianira, o sofrimento depois da morte do companheiro transformou-se em uma filosofia de vida que desrespeita a idade, sexo ou status social. O espírito da solidariedade, que há de se ressaltar, é muito mais do que dar esmola a quem necessita ou fazer algum tipo de doação durante os dias das crianças ou Natal. É ter coragem suficiente para doar uma parte do seu tempo.

Apesar de todos os problemas do dia-a-dia, o voluntariado caracteriza-se como uma ação ao outro. Quando pessoas param e refletem, não apenas sobre si, mas sobre o mundo.

Hebert Regis é jornalista e especialista em Jornalismo Literário

Fotos: Paulo José

domingo, 21 de outubro de 2007

 

Frasco de Floral

Nesta semana será comemorada a 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia. A seguir conheça a história do corajoso Marcelo

Por Rodrigo Alves

Marcelo seria personagem de uma matéria minha, indicado por um amigo em comum. A pauta: jovens que só pensavam em beijar. Acabei desistindo dele. Era muito velho para o perfil que procurava – tinha 29 anos e a matéria era sobre adolescentes. A perda foi significativa, pois seria o único personagem homossexual da reportagem.

Sua orientação sexual foi levada em conta porque eu gostaria de contar a história de alguém que raramente aparece neste tipo de matéria: um homossexual. Queria mostrar que não há diferença nenhuma de comportamento com os heteros, mesmo quando se trata da mania de beijar.

Frustrado com a impossibilidade, propus a ele ser personagem de uma matéria, em jornalismo literário, que teria de escrever para a especialização. Ele topou. Topou inclusive que eu publicasse nome e sobrenome já que desta vez a matéria não sairia no jornal.

Cheguei à casa dele em um domingo chuvoso. Estávamos sozinhos, porque ele pediu para que o tio e o primo, com os quais dividia o apartamento, não ficassem em casa. Confesso que fiquei nervoso. Talvez pelo preconceito bobo que infelizmente carregamos arraigado dentro de nós. Por mais que tentemos escondê-lo, reprimi-lo, ele, às vezes, insiste em aflorar.

Notei que Marcelo tinha acabado de tomar banho e estava perfumado. Em nenhum momento se insinuou a mim, algo que imaginava poder acontecer a qualquer momento. Cheguei a criar a cena na minha cabeça de como seria embaraçoso ter de explicar a ele que não estava ali para aquilo e que tinha namorada.

Obviamente nada aconteceu. Burro preconceito. Cabeça fraca. Como é que eu pude imaginar aquilo? Senti-me por muito tempo um monstro. Mas, depois entendi que aquela vivência me ajudou a ter uma visão um pouco mais plural e fez parte de um processo de amadurecimento.

A conversa foi muito agradável. Ela se repetiria ainda mais duas vezes, na intenção de mergulhar mais profundamente na vida do meu personagem. Naquele início de noite, Marcelo me mostrou o vidro do floral (um remédio homeopático) que usava.

Estava sobre a mesa do computador, enquanto ele procurava por um site na Internet que explicava para que serve cada componente da fórmula. Ainda restava um pouco do conteúdo no frasco e o rapaz lembrava-se que era hora de pedir nova receita para a psicóloga.

A fórmula ajuda a superar compulsões, indecisão, depressão, preguiça, timidez, fumo e a aumentar a autoconfiança. Houve um momento em que uma compulsão por sexo havia surgido e o remédio o ajudou a contornar o problema. Sorriso nervoso, pele morena, cabelos negros curtos, quase sempre escondidos por um boné, ele me contou alguns episódios marcantes de sua trajetória.

Um deles foi o que viveu certa vez, com o segundo companheiro com manteve um relacionamento mais longo. Moraram juntos por muito tempo. Havia acabado de chegar no barracão que dividiam. Depois de quase dois anos de namoro, o relacionamento entre os dois rapazes estava desgastado.

– Eu sei que você não me ama mais – reclamou Marcelo.
– Você quer terminar?
– Não é isso. Acho que não precisa tanto.

Era a oportunidade que o companheiro esperava há muito tempo. Sem dizer o que já era latente, simplesmente anunciou a decisão.

– Em três dias, no máximo, volto para buscar o resto das minhas coisas.
– Tá certo disso? Se sair é definitivo... Não precisa nem pedir para voltar depois.

Marcelo chorou. O companheiro depois quis voltar, mas como ele prometeu, não houve volta. Pela primeira vez conseguia se livrar de um situação que o incomodava há muito. O rapaz, que Marcelo conheceu quinze dias depois de terminar seu primeiro namoro, era gay e não se aceitava. “Gay não é uma coisa certa”, dizia sempre.

Visivelmente perturbado, o rapaz se auto anunciava um protegido de Deus e só por isso podia continuar tendo relações homossexuais. Obrigava Marcelo a se confessar ao padre toda semana para poderem comungar nas missas dos domingos.

Naquele domingo em que eu o encontrei, ele não foi à missa. Já não ia há anos. A chuva lá fora havia parado e tive de ir embora. Marcelo tinha outro compromisso. Iria se encontrar com o atual namorado. Estava meio ressabiado com o namoro. Com sete meses de relacionamento, o novo companheiro estava um pouco indiferente. Marcelo parecia prever que, daí a menos de um mês, outro relacionamento terminaria, mas desta vez de uma forma saudável.

*Marcelo é nome fictício que resolvi usar para preservar sua identidade

Semana GLBT
Esta semana é dedicada ao orgulho gay em Goiânia. O ápice da semana será no domingo, com a 6ª edição da Parada Gay da cidade, oficialmente chamada de Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transsexuais e Travestis). O evento inicia-se ao meio-dia, no Parque Botafogo (próximo ao Parque Mutirama). Durante a semana será realizada no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, a 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia, entre os dias 22 e 27. O ingresso custa R$ 1 por dia. Confira a programação:

Segunda
19h - Abertura - Tema: Cidadania e Direitos Civis: conquistas e ausências para a
população GLBT
20h - Vernissage – Homo queer remixed. Com curadoria de Hugo Siqueira (DF) e trabalhos de Alex Cerveny (SP), Astrounata Mecanico (SP), Clovie Masson (GO), Fernando Cardoso (MG), Fernando Carpaneda (DF), Florian Raiss (SP), Leo Brizola (DF), Lwolf (DF), Lincoln (DF), Marcelo Henrique (GO), Marcelo Salum (SP), Marcelo Solá (Go), Max Miranda (GO), Ronan Gonçalves (GO), Nazareno (GO), Zello Visconti (DF), Chikim Lopes (GO), Glenda Torres(DF/SP), Vinícius Moreira (GO)
21h - Filme: Stonewall (EUA, 99min, 1995)

Terça
12h30 – Filme: Hedwig – Rock, Amor e Traição (2000, 95min)
18h30 – Sessão curtas: Desejo proibido (2000, 30min), Mergulho noturno (2005, 19min), Laura, uma Diva do Babaduu! (2007, 22min)
20h30 – Filme: Short Bus (2006, 102min)
22h – Debate: Violência e Discriminação da População GLBT

Quarta
12h30 – Filme: Minha mãe gosta de mulher (96 min)
18h30 – Filme: Beautiful Boxer (2003, 116min)
20h30 – Filme: Café da Manhã em Plutão (2005, 135min)
22h – Debate: Mídia e representação: papéis e performances GLBT

Quinta
12h – Filme: Tempestade de Verão (2004, 98min)
18h30 – Filme: As filhas de Chiquita (2006, 52min)
22h – Debate: Qual o lugar da L no movimento pela diversidade em Goiás?

Sexta
12h30 – Filme: C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor (2005, 127min)
18h30 – Filme: Lado Selvagem (2004, 93min)
20h30 – Filme: Madame Satã (2005, 105min)
22h – Debate: Negritude e Homossexualidade

Serviço
Evento: 8ª Semana da Diversidade Cultural GLBT de Goiânia
Data: 22 a 27 de outubro
Local: Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, Rua 3 esq. c/ a Rua 9 – Centro
Ingresso: R$ 1
Informações: 3524-2541 (Goiânia Ouro)


Rodrigo Alves é jornalista e especialista em Jornalismo Literário

Foto: Murilo Ribas - www.flickr.com/photos/muriloribas

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

 

O Irmão Mais Novo

Nasce novo blog que une jornalismo cultural, jornalismo de revista e jornalismo literário em proposta para reunir interessados na área

Nada mais justo que o próprio blog seja assunto e personagem de seu primeiro post. A história do Plural Blog começou há dois anos, quando dois concluintes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás precisavam definir rapidamente como seriam seus trabalhos de conclusão de curso. De um lado Erika Lettry, uma amante inveterada de jornalismo cultural, de outro Rodrigo Alves, um apaixonado por revistas. Em um momento mágico, daqueles que acontecem todos os dias mas poucos conseguem perceber, nasceu uma vontade conjunta de unir as duas vertentes para chegar a um produto comum. Vontades acirradas e projeto experimental definido, nasceu a Revista Plural (na foto, a capa do projeto piloto), que inspirou este blog, resultado de um ano de pesquisa. Hoje há participação de mais gente, em trabalho de cooperação. O pequeno irmão mais novo é despretencioso. Quer ser seu companheiro de todos os dias. Por isso, deseja que você seja bem-vindo à família.